Monday, April 11, 2022

O sistema de controle interno para um efetivo programa de Compliance


No artigo anterior fiz uma reflexão sobre as causas que impactam adversamente a qualidade de um programa de compliance. Agora, neste artigo, quero trabalhar em como os atributos de um sistema de controles internos pode tornar o programa de compliance mais efetivo.

Para iniciar, vamos relembrar alguns conceitos básicos que fazem parte da gestão e da dinâmica corporativa:

·         Objetivo de Compliance: Sabemos que “compliance” é uma atitude, e que seu objetivo é assegurar que todas as atividades, tarefas, ações e decisões para a operacionalidade da organização, sejam realizadas dentro dos requisitos legais internacionais, do país e/ou do órgão regulador, além, da conduta e relacionamento serem baseados nos valores morais da organização.

·         Risco: É todo e qualquer evento que, uma vez materializado, deverá impactar adversamente a capacidade da empresa alcançar seus objetivos e/ou sua missão.

·         Controle interno: É toda a ação, baseada em políticas e procedimentos, a qual tem como objetivo mitigar a probabilidade do evento de risco se materializar.

Todas as organizações, sejam elas de qualquer nacionalidade e/ou setor econômico, estão expostas aos efeitos de eventos, internos e/ou externos. Para que a organização possa aumentar sua capacidade de alcançar os objetivos operacionais, corporativos e estratégicos, os quais devem alinhado a sua missão, ela precisa contar como um processo de gerenciamento de riscos, o qual, proativamente, olha para o futuro, conhece os eventos que possam impactar sua operação, identificam os riscos e suas causas, avalia a magnitude e define o tratamento adequado para que possa manter os riscos dentro dos seus níveis aceitáveis, isto é, alinhado ao seu apetite a risco definido.

A gestão de riscos, de forma objetiva, trabalha com três camadas de risco em sua avaliação: Risco inerente, aqueles que estão relacionados com os objetivos primários de um processo; risco de TI, aquele que se relaciona com a operacionalização das atividades de TI em um processo operacional; e o risco de compliance, incluindo neste grupo o risco de integridade também.

Um programa de compliance e integridade, é parte integrante da resposta do risco identificado. Para este programa ser mais assertivo, importante que sua construção leve em conta o resultado oriundo deste processo de gerenciamento de riscos. Além de considerar a natureza, a cultura, o mercado, a estrutura e o nível de exposição da organização.

Para facilitar nosso entendimento de como o sistema de controle interno interage com o processo de mitigação dos riscos de compliance, vou utilizar a visão de Hierarquia do Sistema de Controles Internos do ICI – Internal Control Institute, o qual é baseado no COSO ICFR, para podermos direcionar as ações e/ou documentação de mitigação, como também a responsabilidade de cada um dos níveis hierárquicos neste processo. Vejamos:

1.      Ambiente de Controle: Este é o primeiro nível da hierarquia de controles internos. A qualidade deste atributo irá contribuir para a qualidade dos outros níveis do sistema de controle interno. Sua composição é essencialmente por “soft-controls”, que são: políticas, programa de integridade, gestão da competência, segregação de responsabilidades, monitoramento estratégico e operacional e outros.

No caso de compliance, é neste nível que trabalhamos as políticas que irá direcionar todas as diretrizes que devam ser observadas nas atividades diárias da organização. Estas políticas podem ser compostas por: compliance, integridade, código de conduta, anticorrupção, e outras que a organização achar necessário ter.

Neste nível, também trabalhamos as políticas que irá traçar as diretrizes básicas para a manutenção e/ou desenvolvimento de competências, de cultura e de consciência de governança. Sabemos que a efetividade do programa de compliance está intimamente relacionada com o comprometimento de seus colaboradores, o qual somente é obtido pela gestão de competência e consciência para compliance e integridade.

Os responsáveis pela qualidade deste nível são a gestão executiva (presidente e seus diretos) e a gestão de Governança (Conselho e seus comitês), os quais devem promover a cultura das boas práticas de gestão e governança, a consciência de compliance e dos valores morais da organização, como também devem monitorar o cumprimento de todos estes quesitos, além de reforçar a mensagem pelo exemplo. 

2.      Controle de Processo: Este é o nível onde a gerencia média, aqueles que são tomadores de decisão e responsáveis pelos processos operacionais, tem como responsabilidade organizar, planejar, dirigir e monitorar. É um nível composto por “soft e hard-controls”.

Neste nível, os gestores operacionais são responsáveis pela elaboração e formalização dos procedimentos para a operacionalização das políticas, criação de processos de monitoramento por indicadores de desempenho (KPIs) e indicadores riscos (KRIs).

Devem supervisionar e revisar todo o processo, certificando que a entrega do processo atendeu todas as diretrizes de qualidade, de compliance e de integridade, evidenciando esta atividade por sua aprovação do produto oriundo do processo.

Além disto, devem promover a consciência de governança, compliance e integridade em todas as áreas e/ou processos que sejam responsáveis, além de continuamente direcionar a conduta de seu time, suas decisões e posicionamento para os valores morais definidos no código de conduta.

3.      Controle de Transação: Este nível é composto especificamente por “hard-controls”, como ações de verificação, recálculo, conferência, validação, realizados em conformidade com os procedimentos que foram definidos pela gestão média.

É neste nível onde temos a execução das tarefas que compõem o processo, e consequentemente é onde executamos as atividades de controle para a mitigação dos riscos operacionais, incluindo os riscos de compliance e integridade.

Aqui, os responsáveis são os colaboradores que executam as atividades e também os controles. A segregação de função entre quem executa e quem revisa, quem registra e quem exclui, quem tem a guarda do ativo e quem controla o ativo contabilmente, acontece neste nível. Quando melhor for a segregação, melhor será a qualidade dos controles neste nível.

Como você pode observar, o sistema de controle interno ele é um processo que integra, de forma organizada e estruturada, todos os níveis de uma organização.

Não é possível ter um programa de compliance e integridade efetivo, se não houver um sistema de controle interno específico para a mitigação dos fatores de riscos relacionados com o risco de tomada de decisão, ação ou atividades fora dos requisitos legais e fora dos valores morais da organização.

Para concluir, é importante que a gestão de primeira linha esteja ciente de sua responsabilidade em relação de definição e implementação de todos estes atributos que demonstramos, em todos os níveis. E que para isto, sejam efetivamente apoiados e instrumentalizados pelas áreas de especialistas de segunda linha de gestão, como: compliance, controles internos e gestão de riscos, as quais devem atuar integradas e com sinergia.

Então: Reflita, inove, mude e no final, o que importa

É ser feliz!

Wednesday, March 2, 2022

Por que os programas de compliance falham?

 


Como acontece com outras práticas de governança, o programa de compliance, para ser efetivo, requer que os pilares que irão sustentá-lo, no tempo e espaço, estejam presentes.

Vejamos alguns pontos com os quais normalmente me deparo nas corporações:

  • Encontro programas de compliance que se restringem apenas na existência de políticas de integridade, que é importante, mas não o suficiente.
  • Também, me confronto com programas muito bem elaborados e formalizados em políticas e procedimentos, entretanto, infelizmente, este programa fica somente no papel.
  • Me deparo com áreas de compliance que sua atividade se resume na execução de controle, por meio do preenchimento de checklist, passando a ser, neste caso, parte da primeira linha de gestão, perdendo sua identidade de área especialista de segunda linha de gestão.

Não quero dizer com isto, que contar com um bom programa de integridade, ou ter um processo adequadamente formalizado, ou realizar um monitoramento independente não seja importante. Sim é importante, mas é preciso é que tudo isto faça parte de um processo mais amplo, estruturado e integrado.

Gosto sempre de lembrar que compliance é na realidade “atitude”.

É a atitude que todos, que façam parte ou se relacionam com a corporação, executem suas atividades, ações e decisões dentro dos valores morais e éticos da organização, amparado pelos requisitos legais, sejam eles oriundos de legislação externa, do país, estado, munícipio ou do órgão regulador, sem exceção.

Outro ponto importante que devemos considerar é que se o objetivo é ter uma corporação onde suas atividades sejam amparadas pelos seus valores morais e éticos, dentro dos requisitos legais, temos o “risco” de isto não acontecer.  

Se compreendemos que não estar em compliance é um risco, precisamos gerenciá-lo por meio de um processo estruturado para a identificação dos riscos e seus fatores, avaliando sua magnitude e no final, tratando-o de forma a manter o fator de risco alinhado ao apetite a risco da organização, que neste caso deve ser zero, por motivos óbvios.

Agora, considerando que se não todos, uma boa parte dos fatores de riscos tem sua origem em fatores internos, podemos dizer que o seu tratamento será por meio da implementação de um sistema de controle interno, o qual é formado por ações, formalizadas em políticas e procedimentos, para a mitigação da probabilidade do evento de riscos se materializar.

Então, até aqui, podemos compreender que um programa de compliance para ser efetivo necessita estar amparado por um processo integrado para o gerenciamento dos fatores de riscos, o qual por sua vez, necessita de um eficaz sistema de controles internos.

Mas tudo isto, ainda não é suficiente para que o programa de compliance realmente funcione apropriadamente. É importante que os três pilares basilares estejam presentes. Os pilares são:

1.   Cultura – A organização precisa ter um conjunto de valores e crenças apropriados para influenciar e alinhar a atitude e o comportamento de todos colaboradores, prestadores, terceiros aos requisitos de compliance.

2.   Consciência – A cultura prepara o caminho, mas é importante contar com gestores, colaboradores, prestadores e terceiros que conscientemente acreditem, se comprometam, e que, apoiado pelos valores morais da organização e pelas melhores práticas de gestão, exemplifiquem e exerçam suas atividades dentro dos requisitos de compliance,

3.   Formalização – Para a manutenção da qualidade e entendimento das atividades, estrutura, processos e monitoramento é necessário a existência de um conjunto de documentos como: políticas, procedimentos, código de conduta, instruções de trabalho e outros. Esta documentação, uma vez atualizada e amplamente divulgadas, permite a equalização e alinhamento das atividades e operações, independentemente de qual ciclo de negócio ela pertencer.

Posso, sem medo de errar, dizer que o grande desafio para a implementação de um efetivo programa de compliance é com certeza trabalhar os dois primeiros pilares: cultura e consciência.

Os órgãos de governança, a alta e a média gestão têm papel importante nestes quesitos. Eles têm a responsabilidade de definir os valores, promover um ambiente propicio para a aplicação das melhores práticas de gestão, exemplificando estes valores em seu discurso, posicionamento, ações e em suas decisões.

Logicamente, tudo isto exige uma mudança mental e comportamental de todos os envolvidos, principalmente dos níveis de gestão e tomadores de decisão. Um programa estruturado de capacitação gerencial em governança, compliance e nas práticas de gestão tende a reduzir a resistência à mudança, mas o comprometimento incondicional aos requisitos de compliance, pelos membros dos órgãos de governança, será essencial para o amadurecimento da gestão em relação ao compliance e melhores práticas de gestão.

Cada linha de gestão deve conhecer claramente suas responsabilidades, de forma transparente, não podendo haver dúvidas, de forma que possam prestar conta, para quem os elegeu, sobre toda e qualquer materialização do risco de compliance e/ou violação aos valores morais da organização.

Temas estes que devem fazer parte da agenda do presidente, do conselho de administração e do comitê estatutário de auditoria.

Para finalizar, os programas de compliance que falham são aqueles, que por algum motivo, não contam, de forma equilibrada, com os três pilares: Cultura, Consciência e Formalização

Então: Reflita, inove, mude e no final

Seja feliz!

Tuesday, October 5, 2021

A life, a story, a journey...



Today I would like to ask permission to leave the technical issues of management and governance for a moment, to report a brief extract from my diary.

My goal is to take some of my professional experience from these past 41 years. These are things I didn't learn from books or at university.

We are currently undergoing a change of era. 

Deep changes, some disruptive, both in the corporate world and in society. New paradigms, new knowledge, new work models, all of this directly impacts our professional life.

This entire process of change demands a lot from the professional, generates unemployment, losses, paradigm shifts, adaptation, but in the end, everything somehow stabilizes, as it is part of the maturation process.

The answers to past problems will not necessarily be the answers to current problems.

Observing people, their attitudes and knowing the experience they lived, always helped me a lot to understand the moment, allowing me to manage daily challenges.

I hope this brief report can, in some way, help you.


"Diary, August 31, 2021

Today I turn 61 years old.

This has been a different time, as on the 29th I lost my dad, and I am still processing this event.

It's interesting how our minds work, because despite everything, I feel calm and I'm here reviewing some classes that need to be taught this week.

I was, as usual, with the television tuned to the Bloomberg news agency, I think it's an addiction I bring from my corporate life as C-Level, but it allows me to keep up with what's happening in the business world, however, today I was looking for another channel, in order to start to relax, as it is already 22:30, when I go through the NetGeoWild channel, I see the program that my daughter is one of the protagonists, Dr. K Clinic of exotic animals. (My daughter is a veterinarian specializing in wild and exotic animals and works with Dr. K in Broward County, Florida.)

I always watch the program, but today it was different, seeing her in an emergency room, being broadcasting in over 160 countries, being considered as a reference, here in Brazil as in the United States, triggered, like a movie, my last 40 years of professional life experiences, starting, around 1979, when I joined Coopers & Lybrand team as a trainee.

It was a journey, full of challenges, many things lived and experienced, that not even a university can teach.

For sure many mistakes and some successes...

Various positions: external auditor, internal auditor, controller, financial director, CFO, general manager, in various sectors of the economy: services, food, animal feed, chemical, metallurgy, rubber, tanning, auto parts, textile, automotive, agricultural, most with responsibility for managing operations throughout Latin America, and sometimes including responsible for businesses in other continents.

During all this time I experienced several different economic moments, very challenging, hyperinflation, several devaluations, many economic plans, currency changes, and others.

In the corporate world, it was no different, many challenges, that sometimes, at the time it was happening, it seemed like it would never end. Many reorganizations, operation downsizing, construction and implementation of manufacturing plants, sale of operations, purchase of companies, due diligence, merger, split, dismissal, admission, hiring, project implementation, electronic systems, and much more.

Oh my god, how many things I went through!

Much of my time was spent on a business trip in Brazil and abroad, of course, this implies being absent from family life for a long time, especially in my time where everything, exactly everything, needed to be in person. There were many long journeys. I remember my record was 48 international trips in one year.

Sometimes a lot of stress, but also a lot of good times.

Interesting that even those moments that seemed to me to be a wrong decision, over time, proved to be the best option.

I met and worked with many brilliant professionals, but also with some horrible people, in this case, luckily, a minority, however living with these toxic people, helped me to mature a lot as a manager, and also as a person, and now I understand that it was part of learning process, which allows me to be what I am today.

Thirteen years ago, a little tired of corporate life, and also doing my risk management, I moved into my own business, starting Crossover Company. It wasn't easy, sometimes I wondered if I had made the right decision. I had some invitations to go back to the corporate world, but somehow, I don't know how.

However, at these moments it was very clear that I had to continue with Crossover.

It was a very complex few years, one thing is for you to work for a corporation and another thing is for you to start a company from scratch, betting everything on this company. On twenty-four hours, working at least fifteen hours a day, seven days a week.

Not that it's very different today, but I think I've gotten used to it, moreover, I've learned that when we do what we like, when we see a purpose in our efforts, such as bringing knowledge and support for the strengthening of corporations and the development of professionals, nothing it's boring, on the contrary, it ends up being very pleasurable.

It is interesting that when we are experiencing all of this, there in the middle of the hurricane, it seems that time takes a long time to pass, it seems that there will be no solution, but in the end everything, somehow, passes.

Looking at the past from today's perspective, it's as if this all happened a second ago.

What have I learned from all this?

  • The first learning is that patience is an important virtue, as everything happens in its own time, and that everything, somehow, passes,
  • That every experience, whether good or bad, is an input for our maturation as a professional and as a person,
  • That even the decisions taken, which at first seem to us to be wrong, may, in the medium and long time, prove to be correct,
  • Despite all the knowledge obtained in the academy as well as in daily life, this is never enough, we need to continually seek knowledge and learning, this is called lifelong learning,
  • I learned a lot more from mistakes than from hits, but for that, I needed to learn to recognize that I made a mistake, which was not very easy, as we are not trained to make mistakes. With time and maturity comes the humility to recognize that it was not infallible and could make mistakes,
  • Another learning is that we are nothing alone. To win, we need a committed team with excellent professionals, and I certainly had and have the best people and professionals in all my teams that a manager could have. I am immensely grateful for having the opportunity to live with each one of them,
  • I also learned that it's not the money that moves me, but the challenge, that money is a consequence,
  • That being ethical, in order to have the expected conduct, within society's moral values, is the greatest asset that a professional can have, there is no money to pay for a clear conscience.
  • There is no leader, no followers, and your hierarchical position does not make you a leader. The leader, at the very least, needs to be aggregator, inspiring and trustworthy,
  • Also that instead of worrying about keeping a job, the most important thing was to keep employability.

If I would do it all over again?

Yes definitely. Everything I am today is due to all of this. Of course, I would live all this again, but always with the support of Marcia (my wife), who has always been supporting and participating as a guide in the most difficult times, because without her it would be very difficult.

If there is something that would change?

Yes, I wouldn't have missed my daughter's 15th birthday party, being out of the country discussing corporate annual planning. But this is past and I have to leave this in the past as life goes on.

But seeing her on television, as a high-performance professional recognized for her excellence, all this achieved by her own effort and dedication, in addition to being an incredible daughter, makes me understand that all this effort of mine was not in vain.

Well, it's already two o'clock in the morning, I better go rest, because in a little while, another professional training program will begin.

Wow, if I could share a little of this experience with the students, it would be all good, maybe one day I'll write a book....

Apparently this journey is not near the end.... is it?

Good night diary."

I'm sorry if this account was too long, but I hope that somehow it can help you through the challenges of professional and personal life.

Be sure that any and all experiences, even those that hurt us, will make you more resistant, stronger, and much more aware.

Everything we go through in our life, make sure it matters!

May we leave this world better person than when we arrived!

Reflect, Innovate and Be Happy!

Monday, October 4, 2021

Uma vida, uma história, uma jornada

 


Hoje quero pedir licença de deixar um pouco os temas técnicos de gestão e governança, para relatar um breve extrato do meu diário.

Meu objetivo é levar um pouco da minha experiência profissional vivenciada nestes últimos 41 anos. São coisas que não aprendi nos livros e nem na universidade.

Atualmente passamos por uma mudança de era. Mudanças profundas, algumas disruptivas, tanto no mundo corporativo como também na sociedade. Novos paradigmas, novos conhecimentos, novos modelos de trabalho, tudo isto impacta diretamente nossa vida profissional.

Todo este processo de mudança exige muito do profissional, gera desemprego, perdas, quebras de paradigmas, adaptação, mas no final, tudo, de alguma forma, se estabiliza, pois faz parte do processo de amadurecimento.

As respostas para os problemas do passado, não necessariamente serão as respostas para os problemas atuais.

Observar as pessoas, suas atitudes e conhecer a experiência por elas vivida, sempre me ajudou muito compreender o momento, me permitindo gerenciar os desafios diários.  

Espero que este breve relato, possa, de alguma forma, ajudá-lo.


“Diário, 31 de agosto de 2021

Hoje completo 61 anos de idade.

Este está sendo um momento diferente, pois no dia 29 perdi meu pai, e ainda estou processando este acontecimento.

É interessante como nossa mente funciona, pois, apesar de tudo, me sinto tranquilo e estou aqui revisando algumas aulas que precisam ser ministradas esta semana ainda.

Estava, como de costume, com a televisão sintonizada na agência de notícias Bloomberg, acho que é um vício que trago da minha vida corporativa como C-Level, mas que me possibilita manter atualizado em relação ao que acontece no mundo dos negócios, entretanto, hoje estava procurando um outro canal, de forma a começar a relaxar, pois já são 22:30, quando passando pelo canal da NetGeoWild, vejo o programa que minha filha é uma das protagonistas, Dra. K Clinica de animais exóticos.  (Minha filha é médica veterinária especializada em animais selvagens e exóticos, e trabalha com a Dra.K, no condado de Broward na Flórida.)

Sempre vejo o programa, mas hoje foi diferente, vê-la em um atendimento de emergência, sendo televisionada para mais de 160 países, sendo considerada como uma profissional referência, aqui no Brasil como nos Estados Unidos, desencadeou, como um filme, estes meus últimos 40 anos de vida profissional, plasmando de forma simples, todas as experiências que tive iniciando, lá pelo ano de 1979, com minha ida para a auditoria externa na condição de trainee na Coopers & Lybrand.

É foi uma jornada, repleta de desafios, muitas coisas vividas e experenciadas, que nem uma universidade consegue ensinar.

Muitos erros e alguns acertos...

Diversos cargos: auditor externo, auditor interno, controller, diretor financeiro, CFO, gerente geral, em diversos setores da economia: serviços, alimentação, alimentação animal, químico, metalurgia, borracha, curtume, autopeças, têxtil, automotivo, agrícola, boa parte com responsabilidade de gestão de operações em toda América Latina, e algumas vezes incluindo responsável por negócios em outros continentes.

Neste tempo todo vivenciei diversos momentos econômicos diferentes, bem desafiadores, hiperinflação, diversas desvalorizações, muitos planos econômicos, mudanças de moedas, e outros.

No mundo corporativo, não foi diferente, muitos desafios, que algumas vezes, no momento em que estava acontecendo parecia que não terminaria nunca. Muitas reorganizações, downsizing de operação, construção e implementação de plantas fabris, venda de operações, compra de empresas, due diligence, fusão, cisão, demissão, admissão, contratação, demissão, implementação de projetos, sistemas eletrônicos, e muito mais.

Puxa vida, quanta coisa!

Boa parte do meu tempo passei em viagem de negócios no Brasil e fora do país, logicamente, que isto, implica em estar ausente por muito tempo da convivência familiar, principalmente no meu tempo onde tudo, exatamente tudo, precisava ser presencial. Foram muitas viagens de longa duração. Lembro que o meu recorde foi de 48 viagens internacionais em um ano.

Em alguns momentos, muito stress, mas também, muitos momentos bons.

Interessante que mesmo aqueles momentos que me pareciam ser uma decisão equivocada, com o passar do tempo, se demonstrou ser a melhor opção.

Conheci e trabalhei com muitos profissionais brilhantes, mas também com algumas pessoas horríveis, neste caso, por sorte, uma minoria, entretanto a convivência com estas pessoas tóxicas, me ajudou a amadurecer muito como gestor também como pessoa, e agora entendo que fez parte do processo de aprendizado, o que me permitir ser o que sou hoje.

Treze anos atrás, um pouco cansado com a vida corporativa, e também fazendo minha gestão de riscos, mudei para um negócio próprio, iniciando a Crossover. É não foi fácil, algumas vezes me questionei se havia tomado a decisão correta. Tive alguns convites para voltar ao mundo corporativo, mas de alguma forma, não sei como, nestes momentos ficava muito claro que tinha que continuar com a Crossover.

Foram alguns anos bem complexos, uma coisa é você trabalhar para uma corporação e outra coisa é você começar uma empresa do zero, apostando tudo nesta empresa. Ligado vinte-quatro horas, trabalhando pelo menos quinze horas por dia, sete dias por semana.

Não que seja muito diferente hoje, mas acho que me acostumei, além do mais, aprendi que quando fazemos o que gostamos, quando enxergamos um propósito em nossos esforços, como levar conhecimento e apoio para o fortalecimento das corporações e o desenvolvimento dos profissionais, nada é enfadonho, muito pelo contrário, acaba sendo muito prazeroso.  

Interessante que quando estamos vivenciando tudo isto, lá no meio do furacão, parece que o tempo demora a passar, parece que não vai haver solução, mas no final tudo, de alguma forma, passa.

Olhando para o passado pela perspectiva de hoje, é como se tudo isto tivesse acontecido um segundo atras.

O que aprendi com tudo isto?

  • ·         Primeiro aprendizado é que a paciência é uma virtude importante, pois tudo acontece em seu tempo, e que tudo, de alguma forma, passa,
  • ·         Que toda experiência vivenciada, seja ela boa ou ruim, é insumo para nosso amadurecimento como profissional e como pessoa,
  • ·         Que mesmo as decisões tomadas, que em um primeiro momento, nos parece equivocada, podem, em médio e longo tempo, se demonstrar acertada,
  • ·         Apesar de todo conhecimento obtido na academia como também na vivência diária, isto nunca é suficiente, precisamos continuamente buscar conhecimento e aprendizado, é o chamado lifelong learning,
  • ·         Aprendi muito mais com os erros de com os acertos, mas para isto, antes precisei aprender a reconhecer que errei, o que não era muito fácil, pois não somos treinados para errar. Com o tempo e a maturidade, vem também a humildade para reconhecer que não era infalível e que podia errar,
  • ·         Outro aprendizado é que sozinhos não somos nada. Para vencermos, precisamos de uma equipe comprometida e com profissionais de excelência, e com certeza, tive e tenho as melhores pessoas e profissionais em todas as minhas equipes, que um gestor poderia ter. Sou imensamente grato por ter tido a possibilidade de conviver com cada um deles,
  • ·         Também aprendi que não é o dinheiro que me move, mas sim o desafio, que o dinheiro é consequência,
  • ·         Que ser ético, para ter a conduta esperada, dentro dos valores morais da sociedade, é o maior patrimônio que um profissional pode ter, não existe dinheiro que pague sua consciência tranquila.
  • ·         Não existe líder, sem liderados, e que a sua posição hierárquica não lhe torna um líder. O líder, no mínimo, precisa ser agregador, inspirador e confiável,
  • ·         Também que ao invés de me preocupar em manter o emprego, o mais importante era manter a empregabilidade.

Se eu faria tudo de novo?

Sim, com certeza. Tudo que sou hoje é devido a tudo isto. Logicamente, viveria tudo isto novamente, mas sempre com o suporte da Marcia (minha esposa), que sempre esteve apoiando e participando como balizadora nos tempos mais difíceis, pois, sem ela ficaria muito difícil.

Se tem algo que mudaria?

Sim, não deixaria de ter ido na festa de aniversário de 15 anos de minha filha, por estar fora do país discutindo planejamento anual. Mas isto é passado e tenho que deixar isto no passado, pois a vida segue.

Mas, vê-la na televisão, como uma profissional de alta performance e reconhecida pela sua excelência, tudo isto obtido pelos seu próprio esforço e dedicação, além de ser uma filha incrível, me faz compreender que todo este meu esforço não foi em vão.

Bom, já são duas horas da manhã, é melhor eu ir descansar, pois daqui apouco, começará mais um programa de capacitação de profissionais.

Puxa se pudesse passar um pouquinho desta experiência para os alunos, seria tudo de bom, quem sabe um dia escrevo um livro....

Pelo jeito está jornada não está perto do final.... será?

Boa noite diário.”

 

Desculpe-me se este relato ficou muito longo, mas, espero que de alguma forma ele possa ajudá-lo a passar pelos desafios da vida profissional e pessoal.

Saiba que toda e qualquer experiência vivenciada, mesmo aquelas que nos machucam, vão torna-lo mais resistente, mas forte, e muito mais consciente.

Tudo que passamos em nossa vida, tenha certeza que importa!

Que saiamos daqui melhor do que quando chegamos!

Reflita, Inove e Seja feliz!